“O Seringal é a razão da minha vida”

“O Seringal é a razão da minha vida”

Entrevista com Sebastião Guimarães, o Leão do Seringal

 

 

As inscrições para a Expedição ao Seringal Novo Encanto seguem abertas até o dia 30 de junho. E o valor arrecadado com as taxas será útil em obras necessárias para a manutenção do Seringal. Uma delas é a construção de uma casa para o Sr. Sebastião Guimarães e sua esposa Antonilda Guimarães, que zelam direta e presencialmente  pela área de preservação. Sebastião inclusive é conhecido como “Leão do Seringal” por ter evitado que áreas do seringal fossem invadidas. A equipe do Blog da Novo Encanto conversou com ele, em Rio Branco, no Acre, sobre seu cotidiano dentro do seringal.

 

 

 

Blog NE: Com que tipo de situações o senhor lidou ao longo dessa vivência no Seringal Novo Encanto se que podem justificar esse apelido de “Leão do Seringal”?

 

 Sebastião:  Eu passei algumas situações dos caras quererem me enfrentar, mas graças a Deus e com a fé no Mestre eu venci sem me machucar. Tinha um camarada, um pescador, que dividiu uma área, passando pela capoeira lá de casa, bem no aceiro da casa mesmo. Aí fez um barraco, eu derrubei. Aí depois ele fez outro, em seguida, e a gente foi lá e derrubou de novo. Então ele ficou meio brabo comigo e nós nos encontramos no mesmo dia e ele falou algumas coisas pra mim.

 

Blog NE: Era um invasor então?

 

 Sebastião: Sim. Ele queria uma área lá dentro do seringal. Aí fez um picadão do rio Iquiri até a beira do igarapé Preto e disse que era a área dele e que eu não podia andar lá dentro. Aí, ele presenciou eu derrubando o barraco dele e no mesmo dia. Aí eu pedi pra ele ir lá em casa se tivesse alguma coisa contra mim, por que ele disse que eu andava perseguindo ele. Mas ele não foi.

 

 

Blog NE: E aí passaram-se os dias?

 

M Sebastião: Aí passou mais ou menos uma semana desse acontecido. Eu estava indo de Rio Branco pro Seringal e ele também estava no ônibus. Ele morava do outro lado do rio, tinha que cruzar lá no Cafezal, onde mora o Manoel. E ele e o Manoel eram inimigos, ele não podia passar no terreno do Manoel. E o porto dele era mais em cima, passava pelo terreno, então ele tinha que ir pela beira do rio sem o Manoel ver, pelo meio do mato mesmo, pra chegar no caminho que ia pra casa dele. Aí eu cheguei, mais a Antonilda,, de noite, ele estava lá na beira e eu perguntei:

Nonato, tu vai pra onde?

Ele disse:

– Eu vou pra casa.

Eu digo:

– Quer cruzar por aí?

Ele disse:

– Não, eu não passo aí por essa casa não.

Eu disse:

– Então eu vou te deixar lá em cima, no teu porto.

Aí fiz funcionar o motor do meu barco e fui deixar ele lá. Eu dei a carona pra ele não ter que passar por lá e nem ir por dentro do mato, na beira do rio de noite. Fiz com ele o que ele não fez comigo.

 

Blog NE: E depois disso ele não mexeu mais com o senhor?

 

 Sebastião: Isso. Aí depois ele resolveu não invadir mais o seringal. Porque eu disse que se ele fizesse outra casa lá eu não ia esperar pra derrubar a casa não. Eu ia resolver diferente. Aí ele não foi mais.

 

 Blog NE: Então o senhor pacificou a situação sem precisar usar a violência?

 

 Sebastião: É uma guarnição, porque o que eu passei dentro do Seringal Novo Encanto… Os caras me juravam: “Se eu pegar o Sebastião num ramal aí, já viu como é que vai ser, e tal…”. E eu andava tranquilo, nunca aconteceu nada graças a Deus. E eu tenho certeza que era o Mestre me guiando ali, sempre  presente pra me defender. E está sempre!

 

 

Blog NE: E o senhor está com que idade?

 

 Sebastião: Eu tenho 64 anos, vou interar 65 agora em 2018 e, se Deus quiser, vou me aposentar.

 

Blog NE: E sua esposa Antonilda?

 

M Sebastião: Antonilda inteirou 55. Tá lutando também pela aposentadoria.

 

Blog NE: E antes de ir morar e zelar pelo Seringal, o senhor trabalhava com o que?

 

 Sebastião: Eu cortava seringa lá nas margens do rio Abunã, no Seringal Itamarati, Plácido de Castro, próximo do Seringal Sunta.

 

Blog NE:  E como surgiu a oportunidade de morar no Seringal Novo Encanto?

 

 Sebastião:  Fui morar no Seringal Novo Encanto em 1994 a convite da Diretoria da Novo Encanto na época, por causa de umas invasões que estavam acontecendo lá. Os seringueiros estavam vendendo madeira pras serrarias que serravam clandestinamente e não tinha quem tomasse de conta. Aí eu fui. Foi meio difícil, a mulher não queria ir, mas depois ela resolveu. E a gente está lá até hoje lutando. Não topam moleza não, porque se a gente tivesse bancado o mole não tinha Seringal Novo Encanto hoje. Até hoje mesmo eu falei pra uma pessoa: – Se e eu saísse da Novo Encanto acabou-se também. – Até hoje. Pode ser que amanhã, se Deus quiser, apareça uma pessoa pra ficar lá, que eu tenho vontade de sair. Mas não posso, porque não quero abandonar o que eu já fiz, o que eu venho trabalhando. Estou esperando aí o reconhecimento do povo, que tem um bocado que já reconhece, graças a Deus.

 

Blog NE: E qual a expectativa do senhor diante da campanha “Uma Nova Casa no Seringal”, que visa a construir a sua nova casa e a restauração da antiga sede do seringal? O que o senhor está sentindo?

 

 

 Sebastião: Ah, eu estou esperando isso aí faz tempo. Esperando  uma casa pra mim. Porque quando eu fui pra lá, isso era uma das promessas. Tinha a sede construída e ele dizia: – Aqui é a sede do Seringal, que tem o nome de Posto de Saúde “Dr. Camalango” Mas nós vamos fazer uma casa pra você aqui um dia. – Mas diante das dificuldades ainda não foi possível. E eu já estou há quase 23 anos lá, ouvindo sempre essa promessa, e agora eu estou acreditando que nós vamos fazer uma casa pra mim. Então eu estou aguardando isso aí, eu estou feliz! E a restauração da sede, pra deixarmos ela do jeito que era antigamente.

 

Blog NE: E a restauração da antiga sede visa à criação de um memorial no local. Um lugar para contar a história do seringal que é também a sua história.

 

 Sebastião: Exatamente! Que é a minha história. Que o seringal é razão da minha vida. Por que eu arrisquei lá também, junto com a minha família, minha companheira. E eu conto com os irmãos que já vem auxiliando e podemos auxiliar mais. Por isso que nós estamos trabalhando. O Seringal Novo Encanto, se a gente se empenhar mesmo, eu acredito que vem ser o que eu estou pensando, um local autossustentável como nós queremos. E eu espero que a gente firme o pé no chão para chegar nesse ponto.

 

Por Jean Bonazoni/Redação Novo Encanto

Foto: Michela Brigida Rodrigues

 

As inscrições para a 19ª Expedição ao Seringal Novo Encanto podem ser feitas acessando o site oficial até o dia 30 de junho.

 

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